Cabana do Druida

 Vai fazer 4 meses que, compulsoriamente, me mudei de Porto Alegre, em razão dos abusos imobiliários decorrentes da enchente. Inicialmente, foi uma mudança. Hoje, posso dizer que fui embora. Deixei para trás e não tenho pretensão de voltar. 


Deixei para trás

a capital

relações

meios sociais

ativismo/militância

Fechei portas


Como falei em uma das minhas postagens no Instagram, o reencontro com a Escócia encerrou uma tão longa busca. Hoje, em qualquer lugar que eu estiver que não seja a minha tão amada Alba, tanto faz. No último encontro com Odin em uma cerimônia xamânica, ele havia me dito que esse período no interior do Estado seria importante para ressignificações, finalizações e inícios. Um período imersivo de silêncio em algumas realidades da jornada da minha alma. Ele estava, como sempre, completamente correto. 

Quero apontar algumas coisas que tenho refletido. 


Distante da capital, tive maior nitidez no quanto aquela cidade estava me matando. Meu corpo já resistia àquele lugar. O abandono da cidade e os densos projetos neoliberais, a aceleração urbana… meu corpo estava adoecendo. Eu tinha receio de sair da cidade, acreditando que ali era o centro de muitas oportunidades. Para quem? Foram 12 anos morando lá e nunca consegui emprego formal. Vivia exausto, estagnado e sem uma rede de contatos Quem Indica. Recorri ao trabalho autônomo, bastante instável, para sobreviver. A capital reforçava o meu medo de escassez. Pouco frutificava, pouco se sustentou e eu sabia que chegaria um momento em que as condições de vida seriam inviáveis. 


A vida distante da capital me permitiu respirar fundo. A vida está incerta e imprevisível, mas quando que foi? Eu tinha mais certezas/ilusões. Aqui, em um recomeço, eu vivo o que novos inícios nos permitem: o semear e apostar no que vai ser. Ao poder desacelerar, me alimentar melhor e ter uma qualidade de vida superior, consigo refletir melhor e ter tempo e espaço para meus projetos pessoais. Aqui, o medo não toma mais a frente. Aqui, retomei o foco e a determinação que há muito pareciam perdidos. Descobri novos sonhos para alimentar. 


Recursos emocionais e tudo o que desenvolvi quanto a isso tem sido reforçado e colocado a teste. Me vejo mais forte e confiante. Retomei atributos que achei que estavam perdidos. Na verdade, a capital e relações foram fatores que me fizeram silenciar muito de mim mesmo. 


A capital é uma cidade que, a todo momento, nos diz que somos desimportantes e insignificantes. Aqui, sou desimportante, mas significante. O preconceito e a discriminação são muito mais explícitos e há pessoas bastante hipócritas, mas já estou calejado e aprendi a lidar. Apesar disso, há uma parcela de pessoas atenciosas, receptivas e bastante corretas. Problemas são resolvidos honestamente e ponto. 


A vida na capital pode ter acabado com os meus sonhos, mas hoje posso dizer: que bom. Eles já não fazem mais sentido para quem eu estou me tornando. 


O tempo de incertezas quanto ao futuro tem me dado espaço para elaborar e entender de forma mais integrada o que vivi de forma difusa nos últimos anos. Quando não é possível enxergar a meio palmo à frente do nariz, deve-se voltar para dentro. A tocha que ilumina o caminhar está ali dentro.


Aliás, este blog agora é a Cabana do Druida. Boas-vindas a minha (não tão) nova vida! Ao meu novo lar!


Com carinho,

O Druida. 

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